Quase um mês se passou depois do meu passeio
com o Vitor. Era quase final de agosto. O encontrei varias vezes ao fazer
compras, e conversávamos sempre que podíamos. Eu estava começando a gostar
disso. E, também há quase um mês, minha prima morava comigo.
Eu gostava da morar com ela. Era
agradável ter alguém para contar como foi seu dia antes de dormir, e escutar
como fora o dela. A Camila era uma das únicas que sabiam tudo o que eu estava
passando. Pelo simples fato de que ela era uma das únicas com quem eu me abria,
junto com a Tamara e a Amy.
Mas viver acompanhada
é difícil. Mesmo que por alguém da família. Não sei se a minha dificuldade de
aceitar outra criatura da raça humana nos meus aposentos estava me irritando,
ou se era a diferença de personalidade. Mas eu tinha que conviver com isso.
– Ann, você
sabe onde eu coloquei meus chinelos? – Pergunta-me Camila.
– Vê se você
não os chutou para baixo da cama. – Era típico dela fazer isso.
– Obrigada.
Achei eles. – Eu não era muito organizada para reclamar de minha prima, porém a
minha bagunça era mais inocente que a dela.
Minha prima
era determinada. Ela queria, a qualquer custo, me fazer mudar, sair mais de
casa a princípio, então ela me chamava para ir a vários lugares. Eu conseguia
persuadi-la do contrario algumas vezes, mas mesmo assim, nós saímos bastante. Íamos
ao cinema praticamente a cada cinco dias, almoçamos fora periodicamente e eu a
acompanhei em suas compras. O que foi divertido.
A tática de
Camila para conseguir as melhores roupas pelos preços mais baixos era
inacreditável. O plano consistia em fazer com que o vendedor acreditasse que
vender uma peça de roupa mais barata que a concorrência para ela era
inquestionável, e nada menos que natural. O que minha prima gastava de horas e
mais horas nisso tudo era absurdo, mas saíamos das lojas com cada vez mais
sacolas. E quase metade delas era de roupas para mim.
– Assaltaram
alguma loja, meninas? – Nos pergunta Helena quando chegamos em casa.
– Quase. Da
próxima vez que for às compras leve a Camila junto. – Respondi. – Ela comprou
metade das lojas que entrava. Minha prima foi treinada para isso.
– Eu só sei o
jeito certo de conseguir as coisas. Simples assim. – Responde aos meus
comentários de um modo graciosamente exibido. – Toda garota que gosta de
comprar sabe disso.
– E que gosta
de gastar também. – Interrompe meu pai. – Vocês gastaram a fortuna de que
milionário nessas roupas?
– Eu não
gastei muito, pai. Meu papel nisso tudo foi apenas o de um expectador. – O que
não deixava de ser verdade, pelo menos no começo.
– Bem, não
cheguei a gastar uma fortuna... Digamos que eu comprei na medida certa. –
Responde por sua vez Camila. Era uma arte, do nosso conhecimento, arrumar a
verdade para que ela não soe pesada de mais. Nós não mentíamos, apenas...
Modificávamos.
– Ah, Anna. –
Diz Richard. – Chegou uma carta da faculdade para você de manhã.
– Sério? –
Pergunto assustada, afinal, não esperava por cartas da faculdade nesse
bimestre.
– Sim. Eu a deixei em seu quarto.
– Obrigada
pai. Vou lá ver. – Subo as escadas com Camila me acompanhando. Coloco as
sacolas na minha cama e olho ao redor, procurando a carta. Encontro-a em cima
do criado-mudo, ainda lacrada. Seguro-a com as duas mãos, e leio:
“URGSul-Torres”
“Curso de Férias para Alunos do Ensino Médio:
Historia Antiga.”
Abro o
envelope cuidadosamente e começo a ler o que a carta dizia.
“Cara aluna do Anna
Almeida do 3º ano do Ensino Médio, lhe informamos que sua prova de conclusão do
Curso de Férias para Alunos do Ensino Médio de Historia Antiga foi selecionada
dentre muitas e a senhorita foi escolhida para preencher uma das 10 vagas que
reservamos aos melhores de cada curso. A senhorita ganhou uma bolsa integral de
estudos para cursar nossa faculdade de Historia da Arte, Historia Antiga,
Arquitetura ou Artes plásticas.
Nos informe de sua escolha até o dia 1º
de setembro, se desejar ou não aceitar nossa bolsa integral de estudos.
Grato, URGSul-Torres.”
Li a carta
duas vezes para ter certeza que entendi direito. Eu simplesmente tinha a chance
de me formar na melhor universidade que eu poderia sonhar em entrar. E com tudo
pago. Li novamente.
– O que a
carta diz, Ann? – Camila me tira de meus pensamentos.
– Eu passei. –
respondo baixo de mais para qualquer humano entender. – Passei. – digo
novamente. – EU PASSEI! – Agora os vizinhos também sabiam da novidade.
– C-calma
prima! Você passou no que?
– Passei na
URGSul daqui da cidade! Eu ganhei uma bolsa de estudos para um curso à minha
escolha! – Minha voz subindo algumas oitavas.

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