sexta-feira, 25 de setembro de 2009

VII. Servindo de companhia.

Quando alguém aceita um convite tem que cumpri-lo. Mas isso ecoa como uma obrigação. O meu caso combinava mais com diversão. Convenhamos, a idéia de sair com vários cães é divertida, se não assustadora.
E com esse pensamento minha quarta-feira começa.
No dia anterior, como sempre, a encarregada de reabastecer a geladeira era eu. Uma vez por semana, mais ou menos, eu comprava os frios necessários para o café-da-manhã. Cumprir tal tarefa implica em ir ao mercado, que é onde um certo rapaz trabalha. Sim, me encontrei novamente com o Vitor.
– Oi Anna. Faz tempo que não te encontro aqui. – Diz o Vitor. Dessa vez ele estava na parte dos pães e biscoitos.
– Não tive tempo para vir aqui antes. – Respondo. ­
– E o nosso passeio continua em pé?
– S-sim, continua. – Digo, talvez um pouco rápido. ­– Você não quer que eu passe aqui mesmo?
– Não, eu passo na sua casa, já sei onde é. Não vai me atrapalhar, e de qualquer forma, eu não estarei aqui.
– Então ta bom. Até amanhã. – Não sabia como continuar a conversa, por isso resolvi que era hora de voltar para casa.
Tinha ficado combinado que ele me pegaria em casa, de manhã, na próxima quarta-feira. Ou seja, hoje.
Acordei duas horas antes, para evitar possíveis atrasos. Eu me conhecia bem o bastante para saber que era atrapalhada. Desci as escadas devagar, sem fazer barulho, para não acordar minha prima que ainda dormia. Meu pai e Helena já estavam na cozinha conversando.
– Eu vou sair daqui a pouco, pai. – Interrompo parcialmente a conversa. – Um amigo meu vai passar aqui as nove. Nós vamos passear com alguns cães.
– Um amigo seu? – Pergunta Richard. – Eu o conheço?
– A-acho que sim, mas não se lembra. Ele trabalha no mercado perto da praça. Ele me ajudou quando eu fui comprar ração para o Urso.
– Tem bastante jovens trabalhando naquele mercado. – Comenta Helena. – É um bom lugar para ter seu primeiro emprego.
– É sim... – Vocês querem me arranjar um emprego?
– Hm... Não me lembro direito. – Começa meu pai. – E por que vocês vão andar com cachorros? – Agora ele parecia curioso.
– Ele passeia com cães duas vezes por semana e me convidou para acompanhar na caminhada. Por causa do Urso, talvez. Não sei. – Eles não precisavam saber do detalhe de que eu também havia me convidado.
– Então tudo certo... E a Camila, não vai? – Indaga meu pai.
– Deixe ela passear com só com o rapaz, querido. – Interrompe Helena.
– N-nã-não, não! Este não é o caso. É só q-que a Camila ainda esta dormindo! Nada de mais. – E lá vai a Ann gaguejando novamente.
– Certo... – Conclui Richard. – Vocês não vão voltar muito tarde, né?
– Acredito que voltaremos antes do almoço. – Não deveria demorar muito andar com cachorros.
E assim eu estava pronta para passear com o Vitor. Agora era preciso me preparar psicologicamente.
Não precisei esperar muito. Em cinco minutos avistei um rapaz alto com vários cães presos em coleiras virando a esquina da minha rua. Achei a cena divertida.
– Bom dia, Anna. – Diz o Vitor, com um particularmente mais feliz que os demais. – Você esta esperando há muito tempo? – e me cumprimenta com um beijo no rosto.
– Bom dia para você também. – Respondo após a troca de gracejos. – Não, você chegou rápido aqui em casa.
– Sim, não queria me atrasar. – E retoma sua habitual posição de uma mão na cintura e sorriso nos lábios. – Olha, esses aqui são sua responsabilidade hoje. – Alerta-me Vitor, com ironia brincalhona, ao estender duas guias em minha direção. – Eles não puxam muito, não é difícil de levá-los.
– S-sim, eu consigo levar esses dois. – Respondo. O que não era de se espantar, pelo fato de que os cachorros em questão eram Yorkshires. – Como eles se chamam?
– Pepita, a maior, e Lolita.
– Nomes bonitinhos para duas Yorks. – E realmente combinava.
– Quer decidir o percurso de hoje, Anna?
–Ah... Acho melhor você seguir o seu mesmo. Eu não ando muito, não sei um caminho bom para andar. – Afirmar que eu era sedentária não era uma das melhores opções de conversa que eu possuía.
– Então eu vou te mostrar um ótimo lugar para ir andando. Não é muito longe daqui. – E com essas palavras nós começamos a andar.
– Você mora a onde? – Pergunto.
– Perto da praça central. – Responde Vitor. – É longe daqui.
– Hm... Você vem todos os dias trabalhar no mercado, não?
– Venho sim, mas já me acostumei. No começo era ruim ter que acordar cedo e pegar o ônibus, ou vir de bicicleta. Agora eu não ligo tanto.
Eu fiquei tentando imaginar eu tendo que sair mais cedo pra ir trabalhar. A idéia não me agradou muito. Não que eu não gostasse da parte do “ir trabalhar”, eu apenas achei que me atrasaria mais do que já me atraso.
– E você, trabalha, estuda? – Indaga o rapaz.
– Só estudo por enquanto. Eu estava fazendo um curso de férias, mas já acabou. –Respondo. – Agora não estou fazendo nada.
– E você pretende começar a trabalhar nesse ano?
– Não sei. Seria bom, para ganhar experiência. Mas não sei onde, ou quem, aceitaria uma pessoa como eu.
– Se você quiser eu posso ver se ainda tem vaga lá no meu trabalho. Seria bom ter alguém pra conversar de vez em quando.– Sugere o Vitor. Pode ser impressão, mas ele me pareceu sem jeito nessa hora.
– Tem mais gente trabalhando lá, não tem?
– Ter tem, mas ninguém com quem eu converse.
– Se é assim... Não seria ruim eu começar a trabalhar no mercado.
– Não seria nada ruim. – Completa o Vitor. – Acho que você iria gostar. Não tem muita coisa pra se fazer, além de arrumar as prateleiras, e as vezes cobrir o caixa. E até que se ganha bem.
– Ta bom, vou pensar no caso. – Respondo por fim.
Continuamos nossa caminhada. Eu com os dois pequenininhos, e o Vitor com um Pastor Alemão e um Labrador. O silêncio depois de uma conversa geralmente é incomodo. Dá a entender que o assunto acabou, ou que um dos dois não quer continuar o diálogo. Mas esse nosso silêncio que se seguiu foi... Gostoso. Não me senti desconfortável com ele, muito menos apreensiva. Eu andava sorrindo, e o Vitor também. De vez em quando um olhava para o outro e dava uma leve risada. Os meus Yorkshires corriam atrás do Labrador, que entrou na brincadeira e latia para eles. A diferença de tamanho deixava a brincadeira visualmente engraçada.
– Quantos anos você tem? – Pergunta o Vitor, retomando a conversa.
– dezessete. – Respondo pega de surpresa pela quebra do silêncio.
– Sério?
– Sim, sério. Por quê?
– Ah, nada de mais. Você parece mais velha.
– Sério? – Agora era a minha vez de fazer essa pergunta. – Quantos anos você me dá?
– Vejamos... – Fala Vitor, e começa a pensar. Olha para mim alguns instantes até responder por fim: Uns dezoito... Talvez dezenove anos.
– Então não estou tão mal assim. – Digo brincando.
– Não esta mesmo. – Responde o rapaz, entrando na brincadeira. – E eu? Quantos anos você acha que eu tenho?
– Vejamos... – Faço as mesmas ações que ele fez ao me examinar. Imitando-o. – Eu daria uns dezenove anos também. Não sei direito.
– Quase. Passou perto. – Responde alegre. – Acabei de fazer vinte anos.
– Verdade? – Pergunto surpresa. – Quando foi?
– Ontem.
– E por que você não me contou nada?
– Ah... Eu não quis falar nada. Para não incomodar.
– Não incomodaria nada. Feliz aniversário atrasado, então.
– Muito obrigado Anna. – Responde o Vitor.
– Pode me chamar de Ann.
– Então, muito obrigado Ann. – Diz novamente. Desta vez fazendo reverencia.
Nós andamos por mais algum tempo. Passamos por varias ruas que eu não conhecia direito. Alguns lugares de pouco movimento, o que deixou nossa caminhada mais confortável. Conversamos sobre vários assuntos, desde acontecimentos na infância às ocasiões embaraçosas em trabalho ou escola. No final, ele me levou até minha casa, e paramos na porta.
– Quer tomar alguma coisa? Água ou suco? – Pergunto.
– Não precisa. Já vou andando.
– Está bem, então. – E devolvo a guia dos dois cachorrinhos que eu segurava para ele.
– Obrigado por me acompanhar hoje. Eu gostei muito da nossa caminhada. – Diz o Vitor, segurando a coleira de dois cães em cada uma das mãos, o que impedia a mobilidade de seus braços.
– Eu também gostei. Acho que levo jeito para andar com esses dois pequeninos ai. – E aponto com o queixo para os Yorkshires.
– Você leva jeito sim. Agente poderia andar de novo qualquer dia desses.
– S-sim. – Logo após responder senti meu rosto ficar levemente mais quente.
– Então está combinado. – Responde o Vitor, com o sorriso habitual no rosto. – Já vou indo. Tchau.
– Tchau. – E inclino-me para o beijo no rosto de despedida. O Vitor caminha até a calçada, vira de costas e acena para mim, que respondo com um movimento de cabeça. E ali, parada em frente à porta, observo o mesmo rapaz alto guiando alguns cães, sumir pela mesma curva em que antes apareceu.

2 comentários:

  1. Está muito legal sua história!!!

    vc posta os capitulos a cada 2 semanas, ou mais?
    vc vai falar mais do "jovem mestre", a Ann vai conhecer ele daqui a pouco???

    mal posso esperar pelo proximo capítulo^^

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  2. hohoo < risada malefica xD
    sim, +/- duas semanas, depende das provas que vao ter...e o jovem mestre vai aparecer daqui a poucoo... a familia calegari ainda esta por vir~
    (wahaha wahaha)

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