– Annucha!? Annucha fofucha!? – Só uma pessoa me chamava assim. – Que prima desnaturada que não me recepciona! – E era a Camila.
– Eu estou no meu quarto! – Gritei de volta. – Já vou descer.
– Ta boom!
Não sei se já disse, mas minha prima era parecida comigo. Fisicamente. De resto nos éramos opostas. Tudo o que eu falava em uma semana ela dizia em um dia. Não parava quieta. Fazia amizade facilmente, e adorava sair com seus amigos e namorados. Diferente de mim, que estava solteira há um tempo.
– Achei que você iria chegar mais tarde. – Confesso. Ainda eram duas da tarde.
– E eu ia. Só que achei melhor chegar mais cedo. – Responde-me Camila. – E ai, o que estava fazendo de bom?
– De bom, nada. – O que era verdade.
– Então o que você estava fazendo? – Reformula sua pergunta.
– Apenas pensando. – Verdade de novo.
– Ai, como você consegue? Tem tanta coisa pra fazer e você fica sem fazer nada.
– Eu não estava “fazendo nada”, estava “pensando”. – E era o que eu mais fazia.
– Que seja. – Diz Camila, mudando de assunto. – Eu posso dormir aqui? Eu trouxe roupa de cama e toalha.
– Claro que pode. Sinta-se em casa. – Hoje eu iria para cama tarde.
Arrumamos a cama da Camila no meu quarto. Ele era relativamente grande, mas ficava apertado com uma cama a mais. Isso me incomodava ligeiramente. Minha janela estava aberta, e ficamos conversando debruçadas nela. Era gostoso nessa parte do dia. O sol ficava do lado esquerdo, parcialmente escondido entre as árvores, deixando a paisagem com um ar diferente. Estava bem mais quente que alguns dias atrás, e o vento soprava levemente. Acariciando tudo por onde passava.
– Acho que vou mudar de cidade. – Me fala Camila, entre uma pausa e outra de nossa conversa. – Minha mãe recebeu uma proposta de trabalho em Curitiba. – A mãe dela era contadora. – Ela quer ir para lá semana que vem.
– Nossa... – Foi a primeira palavra que me veio a cabeça. – Ah, isso vai ser bom para ela, não? – Pensar nos pontos positivos era bom. – E Curitiba é uma cidade legal. Você vai gostar.
– Sim, sim. Vai ser bom para ela e Curitiba é realmente uma cidade legal... Mas eu prefiro aqui! – Retruca minha prima. – É aqui que eu estudo. Aqui que tenho meus amigos. Aqui que eu gosto de morar. Não quero mudar de novo.
A mãe da Camila havia se mudado para esta cidade há cinco anos. Como ela trabalha em uma empresa, as vezes é designada a uma outra filial. Tendo que mudar de cidade. Esse era o caso.
– Se você quiser, Camila... – Começo a sugerir. – Você pode ficar um tempo aqui em casa. Agente já colocou mais uma cama no meu quarto mesmo, e você fica morando aqui por um tempo.
– Sério? – Pergunta-me minha prima. Tão feliz quanto surpresa. – Eu adoraria! Isso me da tempo para ajustar as idéias e falar calmamente com minha mãe. – E me da um abraço. – Muito obrigada, Ann!
Morar na mesma casa, e no mesmo quarto, que minha prima não era ruim. Eu me dava bem com Camila. Esse não iria ser um problema. Se bem que acordar com uma pessoa do seu lado, diariamente, pode mudar seu ponto de vista sobre determinados fatos. Mas acredito que uma semana, ou duas, não influenciariam tanto na nossa amizade.
Após tomarmos o café da tarde, assistirmos alguns filmes de ação e romance e depois de tomarmos banho, fomos nos deitar. O que é bem diferente de ir dormir. Ficamos acordadas por uma boa parte da madrugada, o que me deixaria exausta na manhã seguinte, conversando sobre assuntos sem importância e atualizando uma sobre os acontecimentos na vida da outra. Nessa parte da narrativa contei para minha prima sobre o Urso e como o encontrei na garagem, Sebastian e sua singular forma de falar, sobre o educado rapaz do mercado do outro lado da praça, Vitor, e como ele foi gentil me ajudando com a ração. Também contei do presente que recebi dos Calegari, a bela jóia em formato de rosa.
– Não acredito! – Exclama Camila, interrompendo minha narrativa. – Deixe-me ver! Deixe-me ver! Nossa Ann, se eu ganhasse um colar com um pingente por ter achado um cachorro eu adoraria.
– Calma Camila, já te mostro. – E me levanto da cama para pegar o delicado presente que recebi. – Aqui esta. – E entrego para ela a caixa rosada de jóias.
Camila pega em suas mãos meu presente, passando alguns segundos examinando o invólucro, sem abrir a tampa. Quando viu o conteúdo de seu interior se levantou e disse, quase pulando:
–Anna do céu! Isso é presente que se dá em um casamento, não por um simples favor! – Nisso ela estava certa. – Caramba... O “jovem mestre” gosta mesmo do cachorro, em. – E devolve-me a caixa.
– Deve mesmo. – Digo, concordando com minha prima.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
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