sexta-feira, 18 de setembro de 2009

V. Convite.

Acordei leve. Impressionantemente leve. Sem aquela habitual vontade de voltar a dormir.
Desci, ainda de pijama, para a cozinha. Encontrei todos à mesa. Meu pai lendo o jornal. Helena dando comida ao meu irmão.
– Vai sair hoje, filha?
– Não. Este domingo eu vou passar em casa mesmo. – Respondi sorrindo. – Por quê?
– Por nada, só para saber. – E volta para sua leitura.
Minha casa era em um bairro meio afastado. Não havia barulho de carros passando na rua com freqüência. Só os pássaros cantavam. E nesta manhã eles estavam animados também.
– Ah, você poderia ir até o mercado para comprar algumas coisas? – Continua meu pai. – Sua prima vai vir aqui mais tarde, e estamos sem pão, leite e queijo. Assim não vai dar para ninguém comer nada aqui.
– Ta, eu vou. – Concordei. Não sei bem o porque, mas senti falta do Urso quando pensei em voltar ao mercado.
Sair de casa quando não esta frio é gostoso. O tempo vinha esquentando gradualmente, e agora, as manhãs não eram mais tão gélidas. Dava para apreciar a curta caminhada.
Chegando ao mercado me senti estranha. Parecia que uma barreira me impelia de lá, só não entendia muito bem o motivo. Mas compreendi logo que entrei. Ver o Vitor arrumando uma prateleira clareou meus sentimentos. Eu estava nervosa, não estranha. Vê-lo ali me fez querer não estar lá. Se é que da para me entender.
Agradeci por ter trocado de roupa.
Voltar não ia ajudar em nada, então segui em frente. Passei pela outra sessão e fui direto para a parte dos pães. Depois passei pelos laticínios e fiz o caminho de volta. Porém o mercado não era grande o suficiente para que duas pessoas não se esbarrassem, e ele me encontrou.
– Oi, Anna – Me cumprimenta. – E o cachorro, vai precisar de mais ração? – Pelo menos ele pareceu-me realmente interessado.
– Ah... Não, ele foi devolvido para o dono ontem mesmo. – Então não precisarei mais de sua ajuda. – Nem chegou a comer metade do saco que comprei. – O que foi um desperdício.
– Ah, que pena...
– Pelo cachorro ou pela ração?
– Pelos dois. – E de novo aquele sorriso.
Não sei. Aquele sorriso era diferente. No rosto dele ficava tão simples e normal que me parecia mágico. No conjunto, o sorriso deixava-o com cara de inocente, mas ao mesmo tempo esperto. Nele era diferente.
– E então. Gostou da experiência de ter um cachorro em casa?
Demorei um tempo para responder.
– Até que foi interessante. – Interessante. A palavra que mais usava para situações como esta. – Não deu para sentir muito como é ter um de verdade.
– Eu passeio com alguns cães. É um trabalho legal... Se você quiser, pode me acompanhar algum dia desses. Daí você vê como é ter um cachorro, ou vários deles, no caso. É bem divertido. – Agora ele me parecia meio sem jeito. Quem sabe nervoso também.
– Sim. – Aceitei rápido de mais. – Quer dizer, não sei... – Ich, agora pareci confusa. – Quando vai ser a próxima vez?
– Eu passeio de quarta e de domingo. As vezes sábado também.
– Quarta eu poderia te acompanhar? – Não sei por que, mas eu queria.
– Poderia, sim. – Dizer isto com as mãos na cintura o fez parecer intocável. Respondi com um esboço de sorriso. – Pego você na sua casa as nove, pode ser? – Agora me pareceu preocupado.
– Pode sim. – Achei que um sorriso de resposta cairia bem. E ele me respondeu com outro.
– Então esta combinado. Quarta, as nove! – Tirou as mãos da cintura e cruzou os braços. Deixando-os rentes ao peito. – E onde você mora?
Ele precisava saber deste detalhe.
– Moro do outro lado da praça, bem no começo da rua. Em um sobrado vermelho. – A casa mais chamativa da rua. – Não é difícil de achar... Agora eu vou indo. Tenho que levar essas coisas para casa.
– Sim, sim. Até mais. – E assim, nós nos despedimos.
Saí de lá aérea. Como, em tão pouco tempo, arranjei alguém para sair? Eu havia falado com rapaz apenas duas vezes e ele já iria me buscar em casa. Isso não era, definitivamente, uma atitude minha. Eu deveria estar pirando.
– Demorou, Ann. – Advertiu-me meu pai.
– Eu fui andando devagar – O que não era mentira. – O troco.
– Pode ficar. – Meu pai sempre me dava o que sobrava do dinheiro das compras. – Sua prima ligou. Vai chegar de tarde.
– Ta. – Assim era melhor. Sobrava-me mais tempo para devaneios solitários.
Minha prima, Camila, era bem parecida comigo. Ela era do lado materno de minha família. O lado com mais cachos e com pele mais clara. Tinha estatura mediana. Olhos e cabelos dourados. Uma das poucas diferenças era o fato dela ser extremamente magra. Mas não ao ponto de preocupar-se.
– Você poderia cuidar do seu irmão um pouco? Helena está lavando roupa, e eu vou arrumar meu escritório. – Meu pai possuía dois escritórios. Um dentro de casa e outro no centro. O de casa vivia bagunçado. – Está bem, eu cuido dele sim. – Cuidar do meu irmãozinho era quase relaxante. Quase. Ele tinha começado a andar, e tudo era alvo de sua curiosidade. Ou seja: ele era um imã para lugares perigosos.

2 comentários:

  1. Ta ficando muito legall!!! Vc vai falar mais do Callagari, neh??? Estou ansiosa para o proximo capítulo!!! Nao demore muito para postar!!

    ResponderExcluir
  2. obrigadaa Krol!!
    e siim, os calegari vao aparecer, e muito, na historia~

    ResponderExcluir