Agora era a hora de ligar para o dono do Urso. Eu não me dava bem com essas situações, então prolongar este momento só iria piorar as coisas. Como já havia feito antes, digitei o numero e esperei para ouvir os toques. Desta vez, uma pessoa atendeu. Após tocas quatro vezes, uma voz suave soou do outro lado da linha.
– Residência da família Calegari. Em que posso ajudar? – Que ótimo, um mordomo. Estou mais tensa agora.
– B-bem, eu encontrei um cachorro ontem, e ele tinha esse numero na coleira.
– A senhorita encontrou o Urso, então? Que bela noticia! – Então o cão era mesmo deles.
– Sim, também estava escrito “Urso” no medalhão.
– Ele se perdeu a poucos dias. Que bom que esta a salvo. Quando podemos nos encontrar para que possamos recuperar nosso estimado Urso?
– A-ah, quando o senhor puder. – Pelo visto o cachorro era mesmo amado pelos donos.
– Então que seja ainda hoje! – quanta empolgação – Onde a senhorita mora? Mandarei nosso motorista ir ai pegar o Urso.
– Esta bem. Meu endereço é... – Será que os mordomos são assim, mesmo? Bem, ele pode não ser um mordomo normal. Que família rica essa do Urso, em.
– Obrigado, senhorita! O motorista estará passando ai em cerca de vinte minutos.
– S-sim – Que rapidez.
– Ah, já ia me esquecendo – recomeçou o mordomo. – Gostaríamos de agradecê-la por recuperar nosso Urso com algum presente. Gostaria de algo em especial? – O-o quê?
– Na-não! Imagine! Não precisam me dar presente algum. Não fiz nada de mais, na verdade foi o Urso que me achou. O mérito é dele.
– Não gostaria de nada, mesmo? Que pena, terei que encontrar por mim mesmo um presente adequado para a senhorita. Até. – E desligou.
– Alô? A-alô?! – Que surpresa. Um mordomo afobado.
Estes foram os vinte minutos mais rápidos da minha vida. Em um instante eu estava no telefone, e no outro atendendo a campainha.
Um carro prata, estilo esporte, parou em frente à minha casa. De dentro saiu um homem de estatura mediana, cabelos penteados minuciosamente para trás e de terno cinza escuro. Com um embrulho pequeno e delicado nas mãos. O que não me agradou muito. O homem dirigiu-se ao outro lado do carro, e abriu a porta do passageiro. Outro homem, de terno igualmente cinza, mais alto, de cabelos loiros e óculos sai do carro. Pega o embrulho com o mais baixo e começa a caminhar em minha direção.
– Foi a senhorita que encontrou o Urso? – me pergunta o homem loiro.
–S-sim, fui eu – Ele deveria ser o mordomo, pelo tom de voz.
– Neste caso, deixe me vê-lo! O jovem patrão aguarda seu retorno! – Não havia duvida, ele era o mordomo.
– Esta bem. Entrem, por favor. O cachorro está lá dentro.
– Não será necessário. Traga-o aqui fora. Não devemos demorar muito. – Diz o mordomo, com um sorriso categórico no rosto.
– Então esperem um minuto que já trago ele. – não era muito confortável deixá-los esperando, então fui bem rápida ao entrar em casa.
Ao abrir a porta da cozinha o Urso estava sentado, parecendo esperar por alguém. Achei a cena apropriada.
– Urso! Urso, meu caro! Por onde andou nestes dias? – Mal apareço na porta e já fomos recepcionados pelo mordomo caloroso.
– Eu o alimentei nesta manhã, e ontem também. Só não liguei antes por que já era noite quando encontrei o cachorro.
Foi só eu desatar a coleira improvisada do Urso que ele saiu correndo para os braços abertos do mordomo. Seria outra bela cena, se não fosse tão estranha. Imaginei como seria o tal “jovem patrão”. Se o mordomo gostava tanto assim do cão, apenas pelo fato dele pertencer ao rapaz, eu queria saber como ele era.
– Aqui esta seu presente. Como não me disse com detalhes o que gostaria, tive que usar de meus pensamentos para te presentear com algo a altura do seu ato. – diz o homem loiro. – Espero que seja de seu agrado, senhorita. – E estende a mão direita, com o embrulho, para mim.
–Ah... Não precisava. Eu te disse que não queria nada. Foi o cachorro que me achou. Não tive trabalho algum com isso. – Tento em vão não aceitar o presente.
– Meu jovem patrão, e eu, somos eternamente gratos por você ter salvado nosso tão estimado Urso! Nós nos sentiríamos tristes se não aceitasse esse presente.
– E-então está bem. Muitíssimo obrigada. – Digo ao finalmente pegar o embrulho nas mãos.
– A família Calegari é quem agradece, senhorita. – O mordomo já estava entrando no carro quando abaixou os vidros, e disse: – Como a senhorita se chama? Peço-lhes desculpas por não ter perguntado antes.
– Me chamo Anna.
– Muito obrigada, Anna, por resgatar o Urso. Chamo-me Sebastian – Diz por fim o mordomo. E o carro prata vai embora.
Vou caminhando para dentro de casa lentamente. Absorver tantos acontecimentos não era minha praia. Eu era daquelas que ficava remoendo cada pequeno pensamento em minha mente. Até não aguentar mais e desejar ter o controle do que posso ou não pensar.
Quando entrei em na cozinha o telefone estava tocando. Hoje era um dia agitado mesmo. E nem havia passado da hora do almoço.
– Ann?! Aleluia, garota! Eu estava tentando te ligar faz um século! – era a Amy, outra de minhas amigas. – Eu vou passar ai na sua casa em uma hora para agente sair! Já falei com a Tamy e esta tudo combinado! O Matt também vai, ta?
– Ta bom, e para onde vamos? – Era típico dela nos colocar em planos sem nos consultar.
– Vamos para o cinema da cidade vizinha! O daqui é muito pequeno! Não tem nem graça assistir qualquer coisa nele. – Nisto ela tinha razão. – O Matt ta de carro, ele nos leva e nos trás. Já ta tudo planejado.
– Ok. Fico pronta em 40 minutos. Agente volta antes do almoço?
– Acho que não. Almoçar lá seria melhor, não é?
– Pode ser, vai... Até Amy – Meu desanimo era notório.
– Até, Anna!
Mal acordei e já conversei com um rapaz que trabalha no mercado, devolvi um cachorro para um mordomo, recebi um presente e agora tenho que me trocar para sair com a Amy. Não era nem dez horas da manhã.
Subi as escadas para meu quarto, meio cambaleando. Ainda deveria estar com sono. Coloquei o presente que ganhei dos Calegari na cômoda e abri meu guarda roupa. Fazia semanas que ninguém arrumava aquela bagunça. Eu não iria achar nada daquela forma. Com muita sorte, encontrei a blusa e a calça que eu estava procurando. O que era equivalente, naquelas condições, a ter encontrado duas agulhas em um palheiro. Coloquei minha carteira e documentos em minha bolsa. Tomei banho e arrumei meu cabelo em tempo recorde. Em menos de meia hora já estava quase pronta.
Ao descer as escadas encontrei meu pai.
– Anna, de quem era aquele carro que parou aqui em frente mais cedo? – Me pergunta, tentando disfarçar a curiosidade.
– Era o mordomo do dono do cachorro. Eu liguei para o numero que estava na coleira, e ele já veio recuperar o Urso. – Digo ao passar por ele. – A Amy me chamou para sair. Vamos ao shopping perto da praia. Acho que agente vá voltar um pouco depois do almoço.
– Mordomo? Quem diria. – pensa alto meu pai – Ta bom, filha. Toma cuidado que é sempre bom.
– Sim, pai. A Tamy e o Matt também vão.
– Ta. Eu vou ficar em casa o dia todo. Qualquer coisa me liga. – A velha preocupação do meu pai nunca o abandonava.
– Eu te ligo assim que chegarmos ao shopping. – Assim ele ficaria mais tranqüilo – A Amy e os outros devem chegar daqui a pouco. Vou esperar na sala.
Não estava mais tão frio, mas levava comigo meu casaco cinza. O tempo daqui é imprevisível, então estava preparada. Ele era um pouco maior do que deveria, então parecia grande em mim. Eu gostava disso.
Escutei o Matt buzinando, e me levantei do sofá. Meu pai lembrou-me de ligar quando chegasse. Abri a porta da frente e sai.
– Ann! Esta esperando há muito tempo? – Perguntou-me Tamy. – Agente demorou um pouco por que a Amy não decidia a roupa dela.
– Ai gente, nem demorei tanto assim – Diz a Amy, para se defender, ao cruzar os braços. – Nós chegamos, não? – Ela era uma típica japonesa: cabelo liso e escuro. E baixinha.
– Tudo bem, não esperei muito tempo. – Digo eu, entrando no carro.
O carro do Matt não era nem grande nem pequeno. Cabiam cinco pessoas tranquilamente, e já que éramos quatro, sobrou espaço. A Tamara estava no banco da frente, ao lado do Matt, que dirigia. Eu estava atrás, do lado esquerdo, com a Amy ao meu lado.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
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