sexta-feira, 18 de setembro de 2009

II. Conversa.

Mais uma manhã começa. Poderia ter continuado a dormir. Não tinha que ir para o curso. Apenas um detalhe não batia com esta idéia: tínhamos um cão. Acordar com latidos é frustrante. Você sabe que poderia descansar por mais tempo, só que há barulho de mais. Como voltar ao mundo de Morfeu me foi negado, ir ver o Urso era o que me restava. Ele estava acordado, na sala, em frente à porta que dava para o quintal. Inquieto. Eu não iria deixá-lo sair. Tinha que ligar para o numero que estava na coleira primeiro. Perder um cachorro que não é seu é uma má idéia.
O telefone tocou duas vezes e caiu na caixa postal. Meu primeiro impulso foi desligar, mas continuei até terminar de ouvir a mensagem da secretaria eletrônica. Não sabia o que dizer, então desliguei realmente. Só então percebi que ter deixado um recado teria sido melhor. Ter perguntado se a pessoa havia perdido um cachorro recentemente, pelo menos. Que burrice a minha. Então recomecei a discar o numero, mas não continuei. Meu estomago reclamou e achei melhor tomar o café da manha primeiro. Dar comida ao Urso também.
Meu pai aceitou bem a idéia de abrigarmos um cão temporariamente.
– Se você acha melhor, Ann, tudo bem – disse ele quando contei o acontecimento – Mas não tenho tempo pra cuidar de um cachorro, e Helena tem mais coisas para fazer. Até você encontrar o dono, cuide do... Urso você mesma. – Não que Richard não gostasse de animais, apenas achava que não teria tempo para cuidar de um adequadamente. E acreditava que eu também não. Helena, por outro lado, adorou a idéia.
Ontem eu havia dado tudo que estava disponível para alimentar o Urso. Então teria que ir até a mercearia do bairro para comprar ração para ele. E aproveitaria para comprar uma tigela.
Esta manhã estava mais quente que a anterior. E com o sol mais aparente. Andar com um cachorro me pareceu tão natural que gostei da idéia. O Urso já tinha coleira, era só improvisar a guia, e pronto! Peguei uma corda, amarrei à fivela da coleira e comecei a caminhada.
Realmente, aquele era um belo dia. O céu estava tão azul, e sem nuvens, que me perguntei se havia sido pintado.
Eu tinha tempo naquela manhã, então não me preocupei com o caminho, e segui pela praça. Fazia quanto tempo que não passeava por ali? Na verdade, fazia muito tempo que eu não passeava por lugar nenhum.
Andar com o Urso era interessante. A ele me levava mais que eu a ele. Ver toda aquela animação me fez ficar animada também. Como era bom correr sem se preocupar com nada, apenas em correr. Quem sabe eu não adotaria um cachorro depois disso tudo. A mercearia já estava perto. Parei com a corrida e comecei a andar calmamente. O que o Urso não gostou muito. Como não era permitida a entrada de animais, prendi o cachorro na porta do pequeno mercado, e entrei. Não sabia qual ração comprar. Eu era uma leiga nesse assunto. Acho que minha inexperiência era visível, pois um rapaz veio falar comigo.

– Essa não é muito boa. Se o cão for filhote, pelo menos. – Diz o jovem. Ele era alto e de pele clara. Olhos e cabelos castanhos, bem claros.
– Ah... B-bem, não sei a idade dele, mas não me parece filhote. – que bela hora para gaguejar, Anna.
– Se ele for mais velho, temos outras melhores no final do corredor.

– Creio eu que ele seja mais para novo que para velho. Qual você me indicaria então?
– Se é assim, a normal seria o suficiente. Venha, eu pego ela para você.

– O-obrigada... O rapaz me levou até o outro corredor. Passamos por uma infinidade de marcas e tipos de rações. Eu me perderia ali. Até que paramos em frente a uma prateleira com vários petiscos e brinquedos para cães, entre outros produtos.
– Esta aqui é de boa qualidade, e esta em conta. Quantos quilos você vai precisar? – perguntou-me o rapaz.

– Não sei ao certo. Ele come bastante, mas acho que não ficarei com ele por muito mais tempo.
– Leve um saco então, se for precisar de mais volte e compre. Creio que um será o suficiente por uns dois ou três dias. E se a senhorita permite-me perguntar – continuou ele – O cachorro não é seu?
– Não, eu o encontrei na minha garagem ontem – não tinha por que não contar – Ele tem um telefone na coleira. Eu ia ligar para o numero de manhã, mas achei melhor dar comida para o cachorro primeiro.
– Ah! Entendi. Você fez bem. Se ele estava perdido, deveria ter passado fome. Então, eu vou te dar umas amostras de biscoitos caninos também.

– N-nã-não precisa! Só ter me ajudado com a ração esta ótimo! – Não sei por que, mas ele me oferecer os biscoitos me deixou nervosa.
– Que nada, são amostras! Meu trabalho também é distribuí-las aos clientes, senhorita. – e me abriu um sorriso.
– S-se é assim, está bem – me senti corar – eu aceito os biscoitos. Obrigada.

– Não foi nada. A propósito, me chamo Vitor. – e estendeu uma das mãos para me cumprimentar. Tendo na outra a ração e a amostra grátis.
– Eu me chamo Anna. – Estendi também a mão. – Muito prazer.
– O prazer é todo meu, Anna. – E mais uma vez, me mostrou seu sorriso. Na volta para casa eu estava em transe. Conversar com alguém assim era novidade para mim. E o rapaz... O Vitor era muito educado. Tentei tirar esse acontecimento a cabeça. Ter devaneios por uma simples troca de palavras era demais. Cheguei em casa e percebi que não tinha comprado a tigela. Colocaria a ração no mesmo pote que usei na noite anterior. Pensando melhor, se eu iria mesmo ligar para o possível dono do cachorro, ter esquecido a tigela não era ruim.

2 comentários: