Sempre que eu acordo estou cansada. Hoje não poderia ser diferente. Sabe aquelas manhãs que parece que o sol perdeu a hora? Essa era uma delas. Mas para mim estava mais para o sol ter ficado de mau humor. Não que eu ligasse. Até gosto de dias nublados. E estava tentando ficar alheia a toda e qualquer mudança no clima. Porém, mesmo para uma cidade fria, este frio era demais.
Não se pode ficar na cama a manhã inteira. Não importando o quão agradável isto pareça. Já estava ficando acostumada com essa moleza que me abatia depois de acordar. Eu era a que mais demorava para se trocar, por isto não havia mais ninguém acordado nesse horário. A casa não deveria possuir barulho algum. Apenas meus passos e respirações preenchiam meus ouvidos. Por que será que aquela gélida manhã seria diferente?
Logo após o banho deitei-me na cama. Ainda com sono. Meu quarto era os fundos da casa, segundo andar. A parte mais alta da construção. Um som baixo, mas constante, me chamou a atenção. A movimentação começaria em meia hora. Quando o restante de minha família acordasse. Não era para haver som algum agora. Com curiosidade, e força de vontade, abri a persiana da janela para a aparente madrugada. Com o sol recluso não vi nada além de borrões negros em um fundo indistinto. Mas havia algo ali.
Atrasar-me não era uma opção. Meu curso era do outro lado da cidade e haveria prova neste dia. Ignorei o ranger inesperado e fechei a janela. Quando fui para a cozinha todos já estavam à mesa. Meu pai em seu lugar habitual, sua mulher, com meu irmão no colo, ao seu lado. Mesmo acordando antes de todos, eu sempre perdia a hora. Meu café da manhã já estava no meu prato. Tomei o leite, e comi o pão inquieta.
– Vai engasgar filha. – Disse Richard. Meu pai era alto. Cabelo preto e ondulado. Com os olhos igualmente negros. E tinha começado a usar barba.
– Estou atrasada, pai! – continuo a comer.
– Acorde mais cedo e mastigue direito – continua meu pai.
– Anna – interrompe minha madrasta – você poderia cuidar do bebê esta tarde? Tenho que acabar um trabalho.
A esposa do meu pai, Helena, também era alta. Morena de cabelo liso, com os olhos pretos. Conheço-a desde sempre. Ficou grávida ano passado. Eu não me importaria em cuidar do meu irmãozinho.
–Depois que voltar da faculdade eu cuido dele. Mas para isso tenho que ir para lá. Podem me levar agora?
–Eu levo, filha. – meu pai nunca parece feliz em sair de casa antes das nove.
– Obrigada.
A faculdade da minha cidade abria vaga para cursos nas férias. Eu agora cursava Historia Antiga. Uma mistura de Egito e Era Medieval. A professora preparava a pior prova final dos cursos, e eu estava atrasada para ela.
Até que tinha facilidade para a matéria, mas fiz a prova de oitenta questões no tempo máximo. Se minha media baixasse teria perdido minhas manhãs por nada. E agüentar meu pai reclamando por não ter passado no curso era pior que esta prova.
–Ann! Só saiu da prova agora? – Pergunta-me Tamara Ela era uma das poucas amigas que tinha. Ela também fazia curso nas férias, mas não comigo.
–Tamy! Tamy! – eu era mais alegre com ela – Sim... Acho que passei. E você? – Ela não era baixa nem alta. Mantinha seu cabelo castanho curto.
–Já sai há uns minutos, e fui bem! Ah, você viu o Matt? – Matt era o namorado dela. Alto e quase loiro – Não sei em que andar é a prova dele... – Não vi, não. –Então deixa quieto. Quer sair mais tarde?
–Não posso. Vou cuidar do meu irmão à tarde. Tenho que ir andando.
–Ah, pena. Faz tempo que agente não sai – e era mesmo verdade. – No próximo fim de semana agente marca de ir ao cinema. – Está bem, então. Vou procurar o Matt.
–Tchau, Tamy! – Tchau, Ann!
Minha casa era longe, mas ir andando para a creche do meu irmão era tranqüilo. Bem, seria, se o caminho não passasse por uma das republicas mais lotadas da cidade. Meu irmão era barulhento. Nada o descrevia melhor. Não falava ainda, mas não parava de boca fechada por muito tempo. Andar com ele pelas ruas era, no mínimo, chamativo. Eu deixava ele na casa de uma das amigas da Helena, e ficava para ajudar. A reunião dela acabou antes do previsto, então ela pegou meu posto de ajudante. Assim resolvi ir para casa. Uma das melhores, se não única, opção para se fazer em uma tarde fria é ficar na cama com cobertas. Cheguei em casa as quatro da tarde. Meu pai chegaria em uma hora. Até lá, o velho e conhecido silêncio era minha companhia. Ou deveria ter sido. O mesmo ranger de manhã acordou-me de meus devaneios. Desta vez mais... Próximo? Pareceu-me mais intenso, também. Ir procurar o causador de um barulho desconhecido em uma tarde fria era minha outra opção. Mas quase desisti depois de tirar minha perna direita debaixo do cobertor.
A tarde estava tão nublada quanto a manhã. Mas a porta da garagem parecia entreaberta. Não tinha por que não ir lá dentro. Pelo menos lá não ventava. Sempre que me aproximo de um lugar escuro em um dia macabro fico tensa. Quem não ficaria? Mas o barulho vinha de dentro da garagem, e eu queria ver o causador dele.
Abri a porta com raiva. As dobradiças questionaram minha atitude. O que era uma prova de que ninguém entrava lá há um bom tempo. O ranger interno cessou. Continuei avançando. Lá dentro realmente não ventava, e isto deixava o ar meio pesado. E estava mais escuro que fora. Acendi a luz e percebi que a lâmpada estava queimada. Que bela surpresa. Então correntes me chamaram a atenção. Na verdade, o barulho delas. E um vulto de um animal veio até mim. Ele tomou forma e desvendou ser um cachorro. Um grande e peludo cachorro, contudo me pareceu magro. Ele parou depois de encurtar pela metade a distancia entre nós. Avancei alguns passos e achei a causa: A corrente que o cão usava estava presa ao pé da mesa de centro da garagem. Aproximei-me para ajudá-lo e ele se sentou. Um cachorro educado, pelo menos. Mas a maior surpresa foi quando eu o soltei. Ele pulou em mim, fazendo festa. Um cachorro manso, pelo menos. A sensação de ter um Husky pesado no seu colo não é uma das melhores. Não, eu estava errada. Ter um Husky pesado no seu colo te lambendo era pior. Depois de me recompor decidi levá-lo para dentro de casa. Uma garagem escura e úmida não era boa nem mesmo para um cachorro. Como ele parecia magro deduzi que se perdera ha algum tempo. Então deveria estar com fome. O que era um problema. Se papinha também alimentasse cães tudo bem. Quem sabe ele gostasse de macarrão instantâneo. Mas logo percebi que este não seria um problema. O cachorro comeu tudo que o ofereci. Depois de comer ele se deitou no tapete da cozinha e dormiu. Vendo ele ali, quieto, percebi o quanto estava sujo de lama. Antes de aparecer na minha garagem, ele devia ter passado pelo bosque. Olhei mais atentamente e vi que, por debaixo dos pelos, ele tinha uma coleira, uma bela coleira. Seu dono deveria gostar muito dele. E estar preocupado com o paradeiro de seu animal de estimação, também. A coleira possuía um medalhão. De um lado estava escrito “Urso”. Deduzi ser o nome do cachorro. Já do outro lado, um telefone. De seu dono, pensei. Decidi ligar para o numero no dia seguinte. Agora só teria que pensar como explicar para meu pai que um cão iria ficar conosco por um tempo.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
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